Portugal não é Botswana, outra vez
Um artigo d'A Conjura dos Néscios sobre Galiza, Portugaliza, uniformização publicado na terça-feira, 10 de Novembro de 2009
por Óscar de Lis
Há iberismo para além de Saramago? A pergunta, muito na moda há uns anos, volveu estes dias em conversas que quiseram atualizar a ideia ibérica no novo marco de crise económica internacional – uma crise que no Estado espanhol parece querer eternizar-se e que em Portugal, segundo opiniões qualificadas, é já mais uma instituição. Mas a pergunta, na realidade, esconde uma outra: qual o motivo para considerar que a penúltima crise possa modificar as relações interestatais ao ponto de ressurgir uma ideia que, além das saídas de tom de Saramago, tem uma presença tão minoritária?
Um olhar rápido sobre a história da ideia oferece duas certidões que devem ser tidas em conta. Primeira, que a pretensa necessidade de uma união ibérica foi sempre sustida desde o ponto de vista estritamente económico, o qual favoreceu a imagem de uma integração em que Portugal era o integrado e a Espanha (isso que chamam Espanha) era o destino. Segunda, que, como reconhecera o iberista F. J. Faraldo, “Portugal não é Botswana. Tem uma identidade, e não falo só na língua, fortíssima, mas num corpo cultural muito diferenciado, não miscível.”
A ideia, sim, continua a pairar no ambiente graças a Saramago e outros, mas, com a mesma, continua sem resolver as sérias dúvidas que propõe a sua prática, por dous motivos. Porque, à partida, tendo em conta que o Estado espanhol não contempla constitucionalmente uma federalização de si próprio, para preservar-se das mais que prováveis reações da Galiza, o País Basco e Catalunha, a entrada de Portugal teria de dar-se apenas ao modo de território autonómico. E porque, aceitando a boutade de ver Portugal convertido em mais uma província espanhola não só se valoriza o capricho de existir Múrcia ou La Rioja, por exemplo, como autonomias diferenciadas – ao nível da Galiza, Euskal Herria e os Països Catalans, e já, então, Portugal –, senão que se dá carta de normalidade a um submetimento cultural evidente a respeito da cultura estatal que, não cabe dúvida, continuaria a ser esse construto de certames internacionais e jornalismo acrítico que recebe o nome de cultura espanhola. E não falemos já em política, onde a eventual integração de Portugal iria apenas abrir uma fenda nova intolerável para quem vê a Espanha como unicidade. Ou, por outras palavras, se a Espanha ganhar poder demográfico e aumento do PIB, o que é que ganharia Portugal, que como autonomia veria a sua soberania política relativizada pola presença de um executivo ainda central? O despropósito é, até, verificável de uma perspetiva europeia. Porque, numa Europa que se pretende mais dos povos e menos dos estados (se é que continua a pretender-se assim, do qual há já também grandes dúvidas), o único caminho viável é justamente essa retirada paulatina dos Estados e a musculação das euro-regiões, até hoje em geral desprovidas não só de suficientes recursos como também de verdadeira intencionalidade. E aí está a euro-região Galiza-Norte de Portugal, que, com olhos voluntariosos, pode considerar-se prefiguração de uma futura reunião federal que, resoluto o problema galego com o Estado espanhol, pudesse converter-se em espaço preferencial para as relações entre o norte e o sul do Minho. Há quem diga que a criação de uma Portugaliza iria ser uma estratégia tão contra-indicada como a criação de uma Ibéria, em especial para a Galiza. É possível. Mas haveria duas diferenças fundamentais. Primeiro, que a Portugaliza foi definida em todo o momento como federação voluntária (não como descentralização controlada por um poder central, ao modo do Estado espanhol); e segundo, que a Portugaliza não iria impor qualquer problemática cultural quando a cultura galego-portuguesa, ultimamente dividida por uma fronteira, poderia muito bem continuar o caminho de reconciliação que na última década tem produzido tantos frutos, sem necessidade de praticar qualquer processo traumático de assimilação.
Convencer versus Kale borroka
Um artigo d'A Conjura dos Néscios sobre autodeterminação, erros nossos, Galiza, identidade publicado na sábado, 7 de Novembro de 2009
por José Lourenço
É triste ver o modo como a auto-proclamada vanguarda independentista galega, longe de começar a combinar laços e unidades, segue desavida e esparegida, aguardando sabe lá o que. E mais triste ainda resulta comprovar que a proposição de ideias, o seu debate, o trabalho de base, a agitação inteligente e as fórmulas de convencimento têm sido substituídas por retóricas que só querem vencer, que não respeitam nada, que atentam contra o próprio e que apenas procuram produzir um dano que as justifique, à moda de Maquiavel. Em definitivo, por uma estratégia que não serve para a Galiza, porque não se baseia em qualquer praxe atraente, senão que traz à mente, no mínimo, imagens sinistras. Não se trata do seu objetivo, trata-se do efeito que consegue, que é reafirmar pessoas já convencidas, não convencer indivíduos novos – quando o que precisamos aqui, agora, é aumentarmos a base social: convencer.
A tristeza é vermos que, no lugar disso, o discurso é estoutro: o inimigo é a Espanha, o espanhol e tudo o que cheirar a esse Estado repressor das culturas e das nações. Isso nos dizem. Mas, com independência da razão que puder aí haver, e que não cabe agora discutirmos, a leitura social não é essa – logo, a base social não aumenta. Bem ao contrário, diminui devagar porque se topa geralmente que o independentismo é formado por uma banda de garotinhos com nula habilidade cívica, com nenhuma ocupação, com um comportamento distorcido e até delinquente. Tanto tem a verdade que haja por trás dos objetivos soberanistas, porque a sua exposição baseada em ataques à propriedade apenas é (e será, cada vez mais) entendida pola maioria social como delinquência de baixa intensidade – uma tipologia que, transformada convenientemente polo discurso da direita espanhola no país, traz facilmente ao pensamento imagens e imaginações da kale borroka basca, com tudo o que isso implica.
Um caso prático: em 31 de outubro, há só uns dias, um grupo denominado “Galiza rebelde” verteu pintura sobre as fachadas de uma série de lojas de recordações de Compostela, entre cuja mercadoria se podiam topar diversos motivos espanhóis. A imprensa local não só deu espaço às valorações do organismo (establishment) que se encarrega da gestão da cidade velha compostelana, que qualificou a ação de “terrorista”, senão que ainda intitulou a nova com a palavra “atentado”. Com base nisso, pois, a ação não melhorou nem um ápice a percepção dos objetivos soberanistas. Antes ao contrário. Tanto os objetivos concretos, que pareciam ser criticar o turismo maciço como modelo de desenvolvimento, a grande mascarada do Jacobeu e a presença de simbologia espanhola no país, quanto o objetivo geral –a luta pola independência– ficaram vinculados nesta ocasião, para além do vandalismo que já lhes é comummente associado, com as envenenadas palavras mágicas atentado e terrorista. Tanto tem que, per se, constituam uma poderosa tríade de razões para avançar na construção nacional, porque, sejamos claros: 1º) a leitura social só repara nas palavras atentado e terrorista, e 2º) uma folha municipal como ECG, por muito pouco lida que seja, sempre será mais de distribuição geral do que umas cartas de ameaça e qualquer comunicado explicativo que se possa dar. A razão: que a folha municipal chega a toda a vizinhança, e que qualquer explicação que se der –se se der– irá ficar restrita a quem já não questiona a valia destas estratégias.
O dito até aqui não é um rechaço da agitação como fórmula. É apenas um rechaço da forma como ela é empregada e da oportunidade do seu uso. Nem isto é Euskal Herria, nem a Irlanda de Collins, nem a Rússia de Kronstadt, nem de Lenin, Zinoviev e Radek. Aqui não conseguimos ainda construir qualquer processo de soberania em que estas estratégias de agitação pudessem ter o seu lugar. E quem considerar isso não só perde o tempo e o esforço. Faz com que, à vista de quem fica por atrair, a estratégia da agitação continue incompreendida e maldita e, de passo, que os outros percamos credibilidade, razão, e posições para convencer.
Falência do futuro III. Uma resposta
Um artigo d'A Conjura dos Néscios sobre ciência, futuro possível, reflexão, tecnologia publicado na terça-feira, 3 de Novembro de 2009
por Óscar de Lis
O artigo intitulado Falência do futuro II. Uma hipótese queria, através de Roszak e Ellul, identificar a causa de uma paralisia que faz das gerações últimas um exemplo de individualismo e despreocupação social – especialmente perigosos quando povoam as paisagens da esquerda. Não significa que a tecnocracia possa considerar-se como causa única, mas sim, penso, como aquela que transparece e permeia todas quantas puderem ser assinaladas, incluída a inércia – que amiúde se obvia e que, contrariamente ao valor que se lhe confere, parece-me ter um peso fundamental.
Tão contribuidor como os extratos de Roszak e Ellul foi o conciso comentário de Henrique Dória ao respeito. Contribuidor porque, longe de repetir apenas o cântico positivista da ciência, e mesmo estando inspirado por ele, introduz uma série de elementos novos que são importantes e que podem –e devem, penso– ser debatidos com a claridade e a boa disposição com que eles foram expostos, embora o seu recurso à inquestionabilidade.
À partida, considerarei que o que Dória denomina de “ciência” são apenas as ciências exatas e sociais, e menos as ciências (disciplinas) humanísticas. Ora, à partida, podemos muito bem aceitar que a tecnocracia seja, na realidade, o regime em que “ciência e técnica” têm um papel fundamental, isto é, tão incontornável que os modos de vida atuais não possam ser compreendidos sem o absoluto protagonismo desse “ciência + técnica”. Ora, implicar no evoluir social um aprimoramento da dignidade e a libertação do homem é introduzir aí uma valoração do evolutivo mais do que funcional. É, em todo caso, considerar o núcleo “ciência + ténica” separadamente dos núcleos “economia” e “política”, quando na realidade o verificável é apenas uma reunião essencial. Depois de tudo, a "técnica" é a aplicação da "ciência", e como tal aplicação, depende grandemente da volição política, que representa as necessidades sociais e a disponibilidade económica (entenda-se aqui, como penso que faz Dória, que não é o mesmo economia que capital). Logo, a ciência e a tecnologia terão feito tanto pola dignidade e a libertação do homem como o próprio homem, político, tenha permitido. Outrossim, implicando dignidade e libertação, a afirmação de Dória confirma a necessidade de pensar que o humano atual é mais digno e livre do que o cromagnon, o autralopithecus ou o cão – o que, por outra banda constitui uma visão muito caraterística da relação humano-universo que, em termos científicos, não se sustém. Então: a ciência e a técnica terão feito tanto polo homem como o próprio homem tem permitido. O protagonismo passa, finalmente, de novo ao elemento agente: um nós conformado tanto polos peritos quanto polos não-peritos.
Em segundo lugar, Dória considera que a linha de melhora constante trazida pola ciência e a técnica continuará no futuro. Com independência de termos já desbotado a relação ciência-dignidade, considerar que o futuro revelará melhoras sociais derivadas da ciência é considerar igualmente que as aplicações dela, políticas e económicas, serão no mínimo tão responsáveis como até agora – e que, de todos modos, a fenda habitual e o seu alargamento (de que falamos no anterior artigo) não terão qualquer efeito que venha distorcer esse futurível. Por outra parte, acredita que a aplicação imparável do “ciência + técnica” irá criar um homem novo, sem aventurar como esse homem será. Por que pensarmos, então, que esse neo-homo, se criado, irá ser melhor (conceito moral) do que o atual? É certo que se têm avançado descrições em positivo. Mas também é certo que o terreno da ciência fição distópica têm ensaiado profusamente as possibilidades de um futuro inferno: aplicações repressivas da consciência expandida naquele The Minority Report (P. K. Dick, 1956), institucionalização da dominação tecnocrática ao modo do Admirável mundo novo (Aldous Huxley, 1932) , guerras irresolúveis do tipo da trilogia de Matrix, e assim por diante. Sim, pode-se aceitar que tanto uma prolepse em termos positivos quanto uma outra em termos negativos dependerá da perspetiva de que seja vista, e da vontade de quem a imaginar. Mas, insisto: em tudo caso, por que haveríamos de pensar que esse neo-homo será necessariamente melhor? É que essa aspiração ao bem-estar, tal como definida por Dória, assegura um evoluir em positivo? Temo que não. A aspiração à saúde e à longevidade também estiveram relacionados com distopias de inspiração orwelliana; e a tentativa de fugir ao sofrimento e à morte têm sido retratadas através de relatos como A ilha (Michael Bay, 2005), Frankenstein (Mary Shelley, 1831), e outras.
E, finalmente, Dória introduz a afirmação de que essa superação dos medos do homem está no horizonte do “ciência + técnica”, esquecendo, ao que parece, que a superação dos temores não é sempre possível, que a insatisfação é uma constante do comportamento humano e que, em qualquer caso, o fim de alguns medos é só o início de mais outros, produzidos quer polas ferramentas com que os medos velhos sumiram, quer pola ausência esvaziadora daqueles.
Pois, qual a razão para pensarmos que o “ciência + técnica”, mesmo se considerado como pureza (conhecimento puro e aplicabiliade pura) tem feito ou possa fazer qualquer cousa de melhor para a humanidade? Sendo assim, e descartando a possibilidade de tais purezas, a regulação humana das aplicabilidades, isto é, a caraterização humana das utopias que puderem ser ensaiadas será apenas terreno do debate político. Outra cousa será que esse debate político possa ultrapassar o atual ponto morto de alternância oligopólica de partidos e de alheamento tecnocrático da população. Enfim, cabe muito bem fazer um exercício de consideração em positivo disso que é chamado progresso. Mas, com razões igual de válidas, cabe tão bem fazer o mesmo exercício na linha inversa, considerando-o como intrinsecamente negativo. O bom e o mau não são, em nenhum caso, conceitos científicos. E a concepção científica, de qualquer modo, só pode considerar-se como neutral em função da pretensa neutralidade da ciência, derivada da sua idolatração geral, que pola sua vez descansa, como demonstrou Sabato, em dous elementos sócio-políticos: obscuridade e poder.
Crise e regresso dos espetros
Um artigo d'A Conjura dos Néscios sobre regressos, religião, repressão, ultraliberalismo e neocon publicado na sábado, 31 de Outubro de 2009
por Helena Chão
Em época de crise vem dizer-nos a direita que o Estado é como uma família ou uma empresa, como se apenas se tratasse de uma questão de escala. E que, como qualquer família, não deve endividar-se ou, caso se admitir o endividamento como mais um recurso desta economia que temos construído, não deve ir-se além de um limite razoável. O resultado é que, como a crise do capital a paga o Estado (o nós burocrático), após nos advertirem da dívida como pecado, os governos da direita apresentam orçamentos baseados nela.
Não saberia analisar aqui o conteúdo dos orçamentos da nação, mas, permitam-me: há uma cousa que me preocupa como cidadã não técnica, não perita: acontece que os orçamentos não são apenas um organizar os investimentos públicos de um país – que pudessem, pois, ficar sujeitos a críticas de tipo técnico. São, sobretudo, uma politização do poder económico público que, combinada com um evidente auto-ódio patológico, e com os conceitos de neocolonialismo e de maioria absoluta, pode produzir negras paisagens de discrecionalidade e delírio irresponsável – no pior dos casos, irreversível ou não compensável.
E já não é que no que vai do primeiro ano da legislatura, essas paisagens se tenham enchido com a privatização de serviços básicos e o apagamento geral de todo quanto projeto público puder ter avançado de qualquer forma numa linha polo progresso sócio-comunitário do país (casos de Mancomum, Culturgal, participação vizinhal e pública na energia eólica, etc.), nem é que o orçamento do SERGAS, das universidades, da Conselharia de Cultura e de todo o que haja de social (exceto a dependência, é certo) tenha sido reduzido sem qualquer pudor e invocando o xamânico nome da crise. É que, justamente no tempo dessa crise, a referida Conselharia pretende aumentar o custo da reabilitação do património religioso. É que se tem eliminado a capacidade operativa dos centros Quero-te de planificação familiar e formação afetivo-sexual para entregar a alternativa a organizações ligadas à seita católica, nomeadamente o Opus Dei e outros coletivos anti-abortistas. É que avançam os recursos aos centros de ensino católicos que segregam o alunado em função do sexo. É que uma parte da ajuda psicológica prestada nos hospitais a familiares de enfermos que o precisarem vai ser gerida por padres, freiras e remorsos. É que as moradas de acolhida das vítimas de violência de género vão ser geridas por organizações de mulheres ultra-católicas que na ainda não ultrapassada Espanha franquista obrigavam a própria mulher a ficar reclusa na casa e a se prostituir no interior dessa santíssima união tantas vezes carcerária que foi (e pode ainda ser) o matrimónio. E é, finalmente, que todo isso vai ser pago com dinheiro público que, além de contribuir à controvertível dívida, se retira à promoção da cultura própria, ao ensino da não-violência e de gestão das emoções pessoais, ao encorajamento da formação de iniciativas cívicas de tipo associativo, e assim por diante, num et caetera longo e crescente.









